Não é pergunta existencial não, é só provocação mesmo… ficam hoje dois textos que falam EXATAMENTE sobre o mesmo tema… mas que parecem tão distantes.

O primeiro, a poesia, do genial – e caríssimo – Chico Buarque de Holanda. Infelizmente, não é mais o Chico politizado de outrora, que traduziu/escreveu a peça Os Saltimbancos (com letras de Sergio Bardotti e música de Luis Enríquez Bacalov, baseado no conto ‘Os Músicos de Bremen). Mas como as obras são eternas, fica aí a poesia (atentem para o conteúdo da letra e não para as rimas simples a música infantil). Além da poesia, leiam o texto do blog do Sakamoto (excelente): “Salsichas, Nuggets e o direito do trabalhador ao descanso”. Lembrando que o descanso só vai ser alcançado numa sociedade em que boa parte do nosso trabalho não sirva para enriquecer os outros, e sim a nós mesmos…

 

A Galinha

Todo ovo

Que eu choco
Me toco
De novo
Todo ovo
É a cara
É a clara
Do vovô

Mas fiquei
Bloqueada
E agora
De noite
Só sonho
Gemada

A escassa produção
Alarma o patrão
As galinhas sérias
Jamais tiram férias
“Estás velha, te perdôo
Tu ficas na granja
Em forma de canja”

Ah !!! é esse o meu troco
Por anos de choco???
Dei-lhe uma bicada
E fugi, chocada

Quero cantar
Na ronda
Na crista
Da onda

Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país

Ah, poeta!!

Publicado: 05 12, 2011 em Poesias
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Por tanto tempo deixei esse blog de lado, por tanto tempo deixei mesmo o hobby de groselhar poesias de lado, que até me esqueci como faz… me sinto como começando de novo… não é nada boa a sensação!

Aqui, uma das últimas poesias que tinha escrito antes de hoje…

 

Sem título

Ah, poeta!
Pára de usar a poesia

O papel não é teu amigo de bar
pra jogares nele tuas reclamações
sempre iguais

Mesmo que verdadeiras
sempre as mesmas

A poesia não é tua pra isso
As letras não são tão egoístas
o problema
não é só teu…

Por isso
poeta
põe de lado os problemas
põe pro alto
a poesia

Bom enquanto a minha aula rola, to em casa fazendo tarefas… Daí, vim responder uns comentários aqui, e na minha tentativa de voltar a dar dinâmica pra isso aqui, um poema batido, mas excelente, do Ferreira Gullar e outro que eu não sei se tão batido assim… Homenagem ao, na minha opinião, segundo melhor poeta brasileiro (não abro mão do Drummond, ainda que com certo peso na consciência).

O Açucar

O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
E afável ao paladar
Como beijo de moça, água
Na pele, flor
Que se dissolve na boca. Mas este açúcar
Não foi feito por mim.

Este açúcar veio
Da mercearia da esquina e
Tampouco o fez o Oliveira,
Dono da mercearia.
Este açúcar veio
De uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
E veio dos canaviais extensos
Que não nascem por acaso
No regaço do vale.

Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.

 

“Dois e Dois são Quatro”

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

O Espetáculo

Publicado: 29 09, 2011 em Poesias
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Enquanto não organizo as minhas poesias pra colocar aqui, vou pondo outras…

De um grupo que eu gosto muito, do melhor CD deles… Fudidos os versos em negrito, mas a musica toda e o CD todo são foda…

O espetáculo

Cordel Do Fogo Encantado


Aqui do alto do cruzeiro
Onde o vento faz a curva pra voltar com mais coragem
Vejo o sol tocando a ponta do pára-raio da cruz
Elimino a ofensa do atrito
Atravanco o portão da ventania
Faço a caixa do mar ficar vazia
Boto um teto no vão do infinito (01)

Para dar o pão pra os filhos
Que chegam magros da guerra
O mensageiro do sonho
Nesse terreno que treme
Da magra mão estendida
Da paixão que grita e geme
Das curvas do firmamento
Da claridade da lua
Solidão do mundo novo
A batucada da rua
O espetáculo não pode parar
Quando a dor se aproxima
Fazendo eu perder a calma
Passo uma esponja de rima
Nos ferimentos da alma
(02)

O espetáculo não pode parar
Há certas coisas no mundo
Que eu olho e fico surpreso
Uma nuvem carregada
Se sustentar com o peso
E dentro de um bolo dágua
Sair um corisco aceso (03)
(01) Manoel Filó
(02) Jó Patriota
(03) Manoel Chudu

Saúde

Publicado: 28 09, 2011 em Viscerais
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Saúde é feita pra gastar…

por Marcela Darido.

Precisa definição de saúde, no lugar mais saúdavel, a boa mesa de um bom bar barato!

Insônia

Publicado: 27 09, 2011 em Poesias
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Cansei de falar q eu voltei a escrever… qdo eu escrever, eu voltei, quando eu parar, parei, e pronto.

Fica aí excelente poesia, que tem muito a ver com meus dias atuais

InsóniaNão durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos…
Tantos versos…
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê…

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto… Vem…
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta…
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada…
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Mais uma tentativa de voltar

Publicado: 03 06, 2011 em Poesias
Tags:, ,

Dessa vez, não tenho um poema meu.

Mas resolvi que preciso voltar a escrever poemas, e para tal, preciso voltar a publicá-los.

Deixo aqui uma pequena frase que vi num poste na Av. Paulista. Não concordo plenamente, mas acho que é bem válida…

“Se Picasso pixasse, pixação seria arte?”

É, eu sei que faz teeeeempo que eu não escrevo aqui. Vou tentar retomar o blog e se conseguir, em julho resolvo os problemas de aparência dele…

Por hora, ficam poemas de um poeta que eu só descobri hoje: Cacáso (Antônio Carlos de Brito)

JOGOS FLORAIS
I
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

JOGOS FLORAIS
II
Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.
(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

Tá, isso tá parecendo trilogia chata… mas é o último…

No feriado, fui ver alguns vários filmes… vi alguns dos melhores e o pior da minha vida.

Começo pelo pior, pra prevenir qualquer desavisado: Na Floresta (Mesa Sto Dasos), um filme grego, que vem com o conceito de não ter diálogos, ter uma história pouco clara e ter uma filmagem pouco clara, pra não dizer amadora. Tá que é tudo de propósito, mas é ruim, é chato. Se durasse 15 minutos, eu diria que é uma grande idéia… com 1h40min, é muito chato. Foi o primeiro filme na vida que eu abandonei, aos 40 e intermináveis minutos.

Agora, aos bons:

Memória Cubana: excelente documentário brasileiro, que conta a história do documentarista Santiago, produtor e diretor dos CineJornais cubanos do período da revolução até sua morte. Excelente documentário, empolgante politicamente, e bem feito. A Revolução Cubana é simplesmente linda, ainda que tenha muitos problemas e limitações (dos quais, certamente o mais relevante é o capitalismo que tenta a destruir).

Gigola: filme francês, que questiona a vida, os paradigmas sociais, enfim, um pouco de tudo. Muito legal, atordoante e sincero. Uma jovem estudante de medicina, ao suicídio da companheira, resolve mudar de vida, a passa à ser como um gigolo feminino. A partir disso, a vida vai se desenrolando.

Sombra flutuante (The Floating Shadow): filme chinês interessante. Segue uma trama de mistério que envolve uma prisioneira e uma policial, e seus passados refletindo diretamente no seu presente, e futuros. É bom, boa trama, fluência interessante; mostra como o mundo determina bastante quem somos e o que fazemos. Só erra ao perder o momento de terminar…

O Silêncio (Das Letzte Schweigen): filme alemão, com trama policial. Filme muito bom também, história envolvente, ritmo acertado. Não é uma obra de arte, não é excepcional, mas é um excelente filme.

Tem mais filmes, mas eu não lembro… quando eu lembrar eu completo aqui…

Por fim, preferi a Mostra de 2009, vi filmes melhores, mais interessante. O que não quer dizer que a mostra foi ruim, muito pelo contrário…

Pra fechar, vi um filme no período da mostra, mas que não está nela, que é excelente também:

Como Esquecer: filme com a Ana Paula Arósio, que mostra a relação das pessoas com seus ex-amores, e como isso influencia a vida de uma forma geral e como se faz para superar tais problemas. Muito boa a trama, questionando de tudo, das relações ao homossexualismo.

Agora, devo me afastar um pouco… eleição de DCE da USP, por mais 3 semanas vou correr bastante. Chapa Todas as Vozes, DCE USP 2011.


Bom, lá vamos nós de novo… ou fomos…

Hoje, sai de casa para ver os filmes “A Árvore”, “Exit Trough the Gift Shop” e “Tio Bloonme…” (ganhador da Plama de Ouro 2010).

Daí, o primeiro eu mudei porque era meio longe e o meu irmão não gostou muito da idéia… Fomos ver “El Efecto Tequila“, um filme Mexicano de 2010, dirigido por Leon Serment. Bom filme, mostra interessantemente como foi o período do “efecto tequila”, a crise do méxico de 94/95. Mostra a sujeira do mercado de valores, a relação promíscua do Estado capitalista com tal mercado, e como o capitalismo destrói relações humanas… mas é um pouco maniqueísta de mais. Bom filme, mas nada genial.

Os outros dois estavam esgotados (saímos as 18h, a sessão do “Exit…” era as 19h50 e a do “Tio Bloonme…” as 23h10 !!).

Daí, ficamos na dúvida, mas resolvemos assistir “L’autre monde“, filme franco-belga de 2010. Dirigido por Gilles Marchand, conta uma história que mistura a fantasia e o real com muita qualidade. É uma história que mistura com naturalidade a relação de um casal e de um fato estranho que eles presenciam. Me agradou muito a beleza real dos atores, especialmente da Pauline Ettiene (Marion); são pessoas bonitas, mas normais, sem um abdomen super trincado, barrigas maravilhosas e corpos perfeitos. Filme imprevisível e muito muito agradável. A melhor surpresa até agora na mostra.

Amanhã, mais filmes, e mais comentários…