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Indispensável

Publicado: 18 03, 2014 em Poesias, Viscerais
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Essa poesia surgiu como homenagem… e lembrei dela ontem, conversando com uma amiga. Achei que fazia muito sentido nesse momento… (a formatação tá alterada, mas não estou com a menor disposição de disputar com o wordpress quem formata o que…)

Dispensável

Dispenso os óculos escuros
prefiro os sinceros,
sem vergonha,
olhos vermelhos.

Dispenso os mil tapas nas costas
troco todos
por um abraço
forte
apertado
sincero.

Dispenso a elegância dos vestidos negros
prefiro a camiseta velha
que o acompanhou tantos dias

Dispenso a dó e a pena
aceito a dor
compartilhada, dissipada.

Viver é resistir

Publicado: 16 07, 2013 em Pedras, Poesias, Viscerais

Continuando a breve série de poemas em homenagem aos trabalhadores, homens e mulheres, que morreram nos porões das prisões e das fábricas durante a ditadura no Brasil…

II

Mas com elas é muito pior…
    como pode ser pior!?
Não,  não é o estupro o pior
é a destruição da vida

Ela
        nem sabia
                                                                  o viu pela última vez
foi presa só
                                                     foi solta, só
foi tocada, apalpada
     penetrada
                                                      não lhe deixaram sentir
                                                      a mão no ventre
deu a luz
                                                      deu a luz
nunca mais
                                                      foi a mesma
enlouqueceu
                                                      fugiu.

Jantar

Publicado: 02 04, 2013 em Pedras, Poesias, Viscerais
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Hoje

jantei cerveja

    e ódio…

 

E dividi a janta

com os que tinham ainda mais comida

a me oferecer

 

Hoje

jantei cerveja

    e ódio…

 

E chorei sozinho

quando estava

satisfeito

Hoje

jantei cerveja

   e ódio…

 

E sinto a fome morta

e a queimação

no peito

 

Hoje

jantei cerveja

   e ódio…

 

E vou dormir

pra fazer a digestão

com a calma adequada

e a classe indispensável.

 

 

Escrita em 27.fev desse ano.

Novamente, depois de muito tempo sem postar, coloco algo novo aqui.

A primeira de uma série de poesias em homenagem ao GTM, à peça que fizemos ano passado e, especialmente, a todas e todos os lutadores que sofreram tanto para que eu consiga colocar isso aqui na internet sem medo de virem à noite me fazer uma visita bastante inconveniente…

Viver e resistir

I

Estou sozinho,
e todos os meus camaradas
estão comigo.

Constroe minha loucura
conversam comigo
me dão forças pra negar
negar o meu corpo.

A cada não, um abraço
um aperto de mão
no meu pescoço
no botão do choque
um aperto do no no meu pé
do pé, no meu saco.

E é a minha esquizofrenia construída que me mantém
morrendo por fora
e vivendo lá fora.

Vai hoje mais um poema do companheiro Mauro Iasi:

Fronteiras

Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras.

Queria explodi-los
em suspiros, gozo e anátemas
para que de tantos pedços
brotassem outras centenas.

Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras…

mas têm.

Não é pergunta existencial não, é só provocação mesmo… ficam hoje dois textos que falam EXATAMENTE sobre o mesmo tema… mas que parecem tão distantes.

O primeiro, a poesia, do genial – e caríssimo – Chico Buarque de Holanda. Infelizmente, não é mais o Chico politizado de outrora, que traduziu/escreveu a peça Os Saltimbancos (com letras de Sergio Bardotti e música de Luis Enríquez Bacalov, baseado no conto ‘Os Músicos de Bremen). Mas como as obras são eternas, fica aí a poesia (atentem para o conteúdo da letra e não para as rimas simples a música infantil). Além da poesia, leiam o texto do blog do Sakamoto (excelente): “Salsichas, Nuggets e o direito do trabalhador ao descanso”. Lembrando que o descanso só vai ser alcançado numa sociedade em que boa parte do nosso trabalho não sirva para enriquecer os outros, e sim a nós mesmos…

 

A Galinha

Todo ovo

Que eu choco
Me toco
De novo
Todo ovo
É a cara
É a clara
Do vovô

Mas fiquei
Bloqueada
E agora
De noite
Só sonho
Gemada

A escassa produção
Alarma o patrão
As galinhas sérias
Jamais tiram férias
“Estás velha, te perdôo
Tu ficas na granja
Em forma de canja”

Ah !!! é esse o meu troco
Por anos de choco???
Dei-lhe uma bicada
E fugi, chocada

Quero cantar
Na ronda
Na crista
Da onda

Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país

Ah, poeta!!

Publicado: 05 12, 2011 em Poesias
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Por tanto tempo deixei esse blog de lado, por tanto tempo deixei mesmo o hobby de groselhar poesias de lado, que até me esqueci como faz… me sinto como começando de novo… não é nada boa a sensação!

Aqui, uma das últimas poesias que tinha escrito antes de hoje…

 

Sem título

Ah, poeta!
Pára de usar a poesia

O papel não é teu amigo de bar
pra jogares nele tuas reclamações
sempre iguais

Mesmo que verdadeiras
sempre as mesmas

A poesia não é tua pra isso
As letras não são tão egoístas
o problema
não é só teu…

Por isso
poeta
põe de lado os problemas
põe pro alto
a poesia

Bom enquanto a minha aula rola, to em casa fazendo tarefas… Daí, vim responder uns comentários aqui, e na minha tentativa de voltar a dar dinâmica pra isso aqui, um poema batido, mas excelente, do Ferreira Gullar e outro que eu não sei se tão batido assim… Homenagem ao, na minha opinião, segundo melhor poeta brasileiro (não abro mão do Drummond, ainda que com certo peso na consciência).

O Açucar

O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
E afável ao paladar
Como beijo de moça, água
Na pele, flor
Que se dissolve na boca. Mas este açúcar
Não foi feito por mim.

Este açúcar veio
Da mercearia da esquina e
Tampouco o fez o Oliveira,
Dono da mercearia.
Este açúcar veio
De uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
E veio dos canaviais extensos
Que não nascem por acaso
No regaço do vale.

Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.

 

“Dois e Dois são Quatro”

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

O Espetáculo

Publicado: 29 09, 2011 em Poesias
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Enquanto não organizo as minhas poesias pra colocar aqui, vou pondo outras…

De um grupo que eu gosto muito, do melhor CD deles… Fudidos os versos em negrito, mas a musica toda e o CD todo são foda…

O espetáculo

Cordel Do Fogo Encantado


Aqui do alto do cruzeiro
Onde o vento faz a curva pra voltar com mais coragem
Vejo o sol tocando a ponta do pára-raio da cruz
Elimino a ofensa do atrito
Atravanco o portão da ventania
Faço a caixa do mar ficar vazia
Boto um teto no vão do infinito (01)

Para dar o pão pra os filhos
Que chegam magros da guerra
O mensageiro do sonho
Nesse terreno que treme
Da magra mão estendida
Da paixão que grita e geme
Das curvas do firmamento
Da claridade da lua
Solidão do mundo novo
A batucada da rua
O espetáculo não pode parar
Quando a dor se aproxima
Fazendo eu perder a calma
Passo uma esponja de rima
Nos ferimentos da alma
(02)

O espetáculo não pode parar
Há certas coisas no mundo
Que eu olho e fico surpreso
Uma nuvem carregada
Se sustentar com o peso
E dentro de um bolo dágua
Sair um corisco aceso (03)
(01) Manoel Filó
(02) Jó Patriota
(03) Manoel Chudu

Insônia

Publicado: 27 09, 2011 em Poesias
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Cansei de falar q eu voltei a escrever… qdo eu escrever, eu voltei, quando eu parar, parei, e pronto.

Fica aí excelente poesia, que tem muito a ver com meus dias atuais

InsóniaNão durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos…
Tantos versos…
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê…

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto… Vem…
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta…
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada…
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa