Indispensável

Essa poesia surgiu como homenagem… e lembrei dela ontem, conversando com uma amiga. Achei que fazia muito sentido nesse momento… (a formatação tá alterada, mas não estou com a menor disposição de disputar com o wordpress quem formata o que…)

Dispensável

Dispenso os óculos escuros
prefiro os sinceros,
sem vergonha,
olhos vermelhos.

Dispenso os mil tapas nas costas
troco todos
por um abraço
forte
apertado
sincero.

Dispenso a elegância dos vestidos negros
prefiro a camiseta velha
que o acompanhou tantos dias

Dispenso a dó e a pena
aceito a dor
compartilhada, dissipada.

Viver é resistir

Continuando a breve série de poemas em homenagem aos trabalhadores, homens e mulheres, que morreram nos porões das prisões e das fábricas durante a ditadura no Brasil…

II

Mas com elas é muito pior…
    como pode ser pior!?
Não,  não é o estupro o pior
é a destruição da vida

Ela
        nem sabia
                                                                  o viu pela última vez
foi presa só
                                                     foi solta, só
foi tocada, apalpada
     penetrada
                                                      não lhe deixaram sentir
                                                      a mão no ventre
deu a luz
                                                      deu a luz
nunca mais
                                                      foi a mesma
enlouqueceu
                                                      fugiu.

Jantar

Hoje

jantei cerveja

    e ódio…

 

E dividi a janta

com os que tinham ainda mais comida

a me oferecer

 

Hoje

jantei cerveja

    e ódio…

 

E chorei sozinho

quando estava

satisfeito

Hoje

jantei cerveja

   e ódio…

 

E sinto a fome morta

e a queimação

no peito

 

Hoje

jantei cerveja

   e ódio…

 

E vou dormir

pra fazer a digestão

com a calma adequada

e a classe indispensável.

 

 

Escrita em 27.fev desse ano.

Há tanto tempo…

Novamente, depois de muito tempo sem postar, coloco algo novo aqui.

A primeira de uma série de poesias em homenagem ao GTM, à peça que fizemos ano passado e, especialmente, a todas e todos os lutadores que sofreram tanto para que eu consiga colocar isso aqui na internet sem medo de virem à noite me fazer uma visita bastante inconveniente…

Viver e resistir

I

Estou sozinho,
e todos os meus camaradas
estão comigo.

Constroe minha loucura
conversam comigo
me dão forças pra negar
negar o meu corpo.

A cada não, um abraço
um aperto de mão
no meu pescoço
no botão do choque
um aperto do no no meu pé
do pé, no meu saco.

E é a minha esquizofrenia construída que me mantém
morrendo por fora
e vivendo lá fora.

Pátrias, corações e fronteiras

Vai hoje mais um poema do companheiro Mauro Iasi:

Fronteiras

Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras.

Queria explodi-los
em suspiros, gozo e anátemas
para que de tantos pedços
brotassem outras centenas.

Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras…

mas têm.

A vida imita a arte, ou a arte imita a vida?

Não é pergunta existencial não, é só provocação mesmo… ficam hoje dois textos que falam EXATAMENTE sobre o mesmo tema… mas que parecem tão distantes.

O primeiro, a poesia, do genial – e caríssimo – Chico Buarque de Holanda. Infelizmente, não é mais o Chico politizado de outrora, que traduziu/escreveu a peça Os Saltimbancos (com letras de Sergio Bardotti e música de Luis Enríquez Bacalov, baseado no conto ‘Os Músicos de Bremen). Mas como as obras são eternas, fica aí a poesia (atentem para o conteúdo da letra e não para as rimas simples a música infantil). Além da poesia, leiam o texto do blog do Sakamoto (excelente): “Salsichas, Nuggets e o direito do trabalhador ao descanso”. Lembrando que o descanso só vai ser alcançado numa sociedade em que boa parte do nosso trabalho não sirva para enriquecer os outros, e sim a nós mesmos…

 

A Galinha

Todo ovo

Que eu choco
Me toco
De novo
Todo ovo
É a cara
É a clara
Do vovô

Mas fiquei
Bloqueada
E agora
De noite
Só sonho
Gemada

A escassa produção
Alarma o patrão
As galinhas sérias
Jamais tiram férias
“Estás velha, te perdôo
Tu ficas na granja
Em forma de canja”

Ah !!! é esse o meu troco
Por anos de choco???
Dei-lhe uma bicada
E fugi, chocada

Quero cantar
Na ronda
Na crista
Da onda

Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país

Ah, poeta!!

Por tanto tempo deixei esse blog de lado, por tanto tempo deixei mesmo o hobby de groselhar poesias de lado, que até me esqueci como faz… me sinto como começando de novo… não é nada boa a sensação!

Aqui, uma das últimas poesias que tinha escrito antes de hoje…

 

Sem título

Ah, poeta!
Pára de usar a poesia

O papel não é teu amigo de bar
pra jogares nele tuas reclamações
sempre iguais

Mesmo que verdadeiras
sempre as mesmas

A poesia não é tua pra isso
As letras não são tão egoístas
o problema
não é só teu…

Por isso
poeta
põe de lado os problemas
põe pro alto
a poesia