Amor, Galeano e Guerra

Ontem faleceu Eduardo Galeano, talvez o autor contemporâneo que mais me emocione, pela temática e pela forma de escrever. Vou procurar postar essa semana algumas coisas, não em homenagem, mas para tentar explicar a falta que suas palavras farão.

Hoje, fica um trecho de um livro não tão famoso quanto “As Veias Abertas…” mas que é dos que me faz querer chorar, ou chorar mesmo, toda vez que leio: Dias e Noite de Amor e de Guerra – muito válido num momento em que pessoas propõe uma nova “intervenção” militar.

O livro é composto por pequenos textos compostos durante as ditaduras militares da America Latina – principalmente do Uruguai, sua terra natal e de onde ele estava exilado e da Argentina, vizinha de Montevidéu, e para onde ele foi em seu exílio.

Um dos textos que eu mais gosto:

“Essa velha é um país”

1

A última vez que a Avó viajou para Buenos Aires chegou sem nenhum dente, como um recém-nascido. Eu fiz que não percebi. Graciela tinha me advertido, por telefone, de Montevidéu: “Está muito preocupada. Me perguntou: Eduardo não vai me achar feia?”

A Avó parecia um passarinho. Os anos iam passando e faziam com que ela encolhesse.

Saímos do porto abraçados.

Propus um táxi.

– Não, não – disse a ela. – Não é porque ache que voce vá ficar cansada. Eu sei que voce aguenta. É que o hotel fica muito longe, entende?

Mas ela queria caminhar.

– Escuta, Avó – falei. Por aqui não vale a pena. A paisagem é feia. Esta é uma parte feia de Buenos Aires. Depois, quando voce tiver descansado, vamos juntos caminhar pelos parques.

Parou, me olhou de cima a baixo. Me insultou. E me perguntou, furiosa:

– E voce acha que eu olho a paisagem, quando caminho com voce?

Se pendurou em mim.

– Eu me sinto crescida – disse – debaixo da tua asa.

Me perguntou: “Voce lembra quando me levava no colo, no hospital, depois da operação?”

Falou-me do Uruguai, do silêncio, do medo:

– Está tudo tão sujo. Está tão sujo tudo.

Falou-me da morte:

– Vou me reencarnar num carrapicho. Ou em um neto ou bisneto seu que aparecer.

– Mas, ô velha – falei. Se a senhora vai viver duzentos anos. Não me fale da morte, que a senhora ainda vai durar muito.

– Não seja perverso – respondeu.

Disse que estava cansada de seu corpo.

– Volta e meia eu falo pra ele, para meu corpo: “Não te suporto”. E ele responde: “Eu tampouco”.

– Olha – disse ela e esticou a pele do braço.

Falou da viagem:

– Lembra quando a febre estava te matando, na Venezuela, e eu passei a noite chorando, em Montevidéu, sem saber por quê? Na semana passada, disse para Emma: “Eduardo não está tranquilo”. E vim. E agora também acho que você não está tranquilo.

2

Vovó ficou uns dias e voltou para Montevidéu.

Depois escrevi uma carta para ela. Escrevi que não cuidasse, que não se chateasse, que não se cansasse. Disse que eu sei direitinho de onde veio o barro com que me fizeram.

E depois me avisaram que tinha sofrido um acidente.

Telefone para ela.

– Foi culpa minha – falou. – Escapei e fui caminhando até a Universidade, pelo mesmo caminho que fazia antes para ver voce. Lembra? Eu já sei que não posso fazer isso. Cada vez que faço, caio. Cheguei ao pé da escada e disse, em voz alta: “Aroma do Tempo”, que era o nome do perfume que voce uma vez me deu de presente. E caí. Me levantaram e me trouxeram aqui. Acharam que eu tinha quebrado algum osso. Mas hoje, nem bem me deixaram sozinha, me levantei da cama e fugi. Saí na rua e disse: “Eu estou bem viva e louca, como ele quer”.

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