Sem tréguas….

“Já que não temos nem a coragem nem a fraqueza suficientes para nos interessarmos amistosamente pelo próximo (não aquele próximo nebuloso, bíblico, mas sim o próximo com nome e sobrenome, o próximo mais próximo, o que escreve à escrivaninha aqui em frente e me alcança o cálculo dos juros para que eu o revise e dê o visto), já que renunciamos volutariamente à amizade, bem, pois então vamos entrar em clima de gozação com esse vizinho que por oito horas está sempre vulnerável. […] E que alívio é dar umas risadas, inclusive quando é preciso conter o riso porque lá no fundo assomou o gerente com sua cara de melancia, que desforra contra a rotina, contra a papelada, enredado em algo que não tem nenhuma importância, que só faz engordar as contas bancárias desses inúteis que pecam pela simples razão de estarem vivos, de se deixar viver, desse imprestáveis que acreditam em Deus apenas porque ignoram que faz muito tempo que Deus já deixou de acreditar neles. A gozação e o trabalho. No fim das contas, em que se diferenciam? E que trabalho nos da ser gozadores, que cansaço. E que gozação é esse trabalho, que piada de mau gosto.”

Mario Benedetti – A Trégua (Montevidéu, 1960)

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Amor, Galeano e Guerra

Ontem faleceu Eduardo Galeano, talvez o autor contemporâneo que mais me emocione, pela temática e pela forma de escrever. Vou procurar postar essa semana algumas coisas, não em homenagem, mas para tentar explicar a falta que suas palavras farão.

Hoje, fica um trecho de um livro não tão famoso quanto “As Veias Abertas…” mas que é dos que me faz querer chorar, ou chorar mesmo, toda vez que leio: Dias e Noite de Amor e de Guerra – muito válido num momento em que pessoas propõe uma nova “intervenção” militar.

O livro é composto por pequenos textos compostos durante as ditaduras militares da America Latina – principalmente do Uruguai, sua terra natal e de onde ele estava exilado e da Argentina, vizinha de Montevidéu, e para onde ele foi em seu exílio.

Um dos textos que eu mais gosto:

“Essa velha é um país”

1

A última vez que a Avó viajou para Buenos Aires chegou sem nenhum dente, como um recém-nascido. Eu fiz que não percebi. Graciela tinha me advertido, por telefone, de Montevidéu: “Está muito preocupada. Me perguntou: Eduardo não vai me achar feia?”

A Avó parecia um passarinho. Os anos iam passando e faziam com que ela encolhesse.

Saímos do porto abraçados.

Propus um táxi.

– Não, não – disse a ela. – Não é porque ache que voce vá ficar cansada. Eu sei que voce aguenta. É que o hotel fica muito longe, entende?

Mas ela queria caminhar.

– Escuta, Avó – falei. Por aqui não vale a pena. A paisagem é feia. Esta é uma parte feia de Buenos Aires. Depois, quando voce tiver descansado, vamos juntos caminhar pelos parques.

Parou, me olhou de cima a baixo. Me insultou. E me perguntou, furiosa:

– E voce acha que eu olho a paisagem, quando caminho com voce?

Se pendurou em mim.

– Eu me sinto crescida – disse – debaixo da tua asa.

Me perguntou: “Voce lembra quando me levava no colo, no hospital, depois da operação?”

Falou-me do Uruguai, do silêncio, do medo:

– Está tudo tão sujo. Está tão sujo tudo.

Falou-me da morte:

– Vou me reencarnar num carrapicho. Ou em um neto ou bisneto seu que aparecer.

– Mas, ô velha – falei. Se a senhora vai viver duzentos anos. Não me fale da morte, que a senhora ainda vai durar muito.

– Não seja perverso – respondeu.

Disse que estava cansada de seu corpo.

– Volta e meia eu falo pra ele, para meu corpo: “Não te suporto”. E ele responde: “Eu tampouco”.

– Olha – disse ela e esticou a pele do braço.

Falou da viagem:

– Lembra quando a febre estava te matando, na Venezuela, e eu passei a noite chorando, em Montevidéu, sem saber por quê? Na semana passada, disse para Emma: “Eduardo não está tranquilo”. E vim. E agora também acho que você não está tranquilo.

2

Vovó ficou uns dias e voltou para Montevidéu.

Depois escrevi uma carta para ela. Escrevi que não cuidasse, que não se chateasse, que não se cansasse. Disse que eu sei direitinho de onde veio o barro com que me fizeram.

E depois me avisaram que tinha sofrido um acidente.

Telefone para ela.

– Foi culpa minha – falou. – Escapei e fui caminhando até a Universidade, pelo mesmo caminho que fazia antes para ver voce. Lembra? Eu já sei que não posso fazer isso. Cada vez que faço, caio. Cheguei ao pé da escada e disse, em voz alta: “Aroma do Tempo”, que era o nome do perfume que voce uma vez me deu de presente. E caí. Me levantaram e me trouxeram aqui. Acharam que eu tinha quebrado algum osso. Mas hoje, nem bem me deixaram sozinha, me levantei da cama e fugi. Saí na rua e disse: “Eu estou bem viva e louca, como ele quer”.

Silêncio

Hoje, começo uma série sobre a morte, sobre a ausência. Preciso escrever sobre isso e venho procurando inspirações, e vou publicando as composições do todo (por isso as vezes podem parecer não fazer sentido)
Entre eles, alguns meus, que surgiram em momentos desses.

O primeiro, é de um autor que flerta com a morte em toda sua obra, e que eu gosto muito, Manuel Bandeira.

O poema em si não fala nada da morte, mas fala do silêncio – que acompanhou os meus momentos de morte e ausência com um peso “mortalmente agudo e suave.”

O Silêncio

Na sombra cúmplice do quarto
Ao contacto das minhas mãos lentas,
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio

Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave
Ferindo a alma de um eleio
Mortalmente agudo e suave.

Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha…
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha.

É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.

Manuel Bandeira in O Ritmo Dissoluto (1924).

Ainda sobre o silêncio, fica Marisa Monte, cantando composição de Paulinho da Viola, sobre o silêncio e o infinito…

O Polvo

Poesia do poeta e militante Mauro Iasi, do seu livro MetAmorFases. Pra quem me pergunta, essa é a explicação… Logo eu, que detesto polvos!

 

Ai… um polvo!
Tentáculos na sala de estar.
Nada mais incômodo que
tentáculos pegajosos.
Este pedaço de vida
que voa pela janela
não é aquele onde eu dizia:
“Eu já resolvi isto”?
Jurei ser diferente.
Papai casou com mamãe,
perante a Igreja e a Lei.
Juraram ser felizes:
mentiram!
Nem Deus, nem os juizes
parecem se preocupar.
Eu não…
Reneguei altares,
cuspi nos papéis amarelados
dos livros de registros civil.
Comigo não…
Apaixonei-me
por olhos meigos,
por uma boca pequena
que guardava palavras doces
e beijos serenos.
Dormimos juntos
moramos juntos
juntos vivemos
comemos
saímos
amamos.
O dia
o café
o almoço
a escova de dentes
os hábitos
o hálito
os sábados
os mitos
os fatos
os filhos.
O ato falho
as falas
as facas
as falas feito facas
as feridas
Meus filhos me olham
como a dizer:
“Papai casou-se com mamãe.
nada jurou a ninguém,
nem a Deus, nem a Lei.
Não registrou seu casamento burguês
por isso pensa que sua infelicidade
é diferente”.
Tem um polvo na sala de estar!
Nada mais grudento que um polvo.
Seus tentáculos enormes e infinitos
crescem a cada dia.
Logo eu que detesto polvos.
Como, por diabos, apareceu este por aqui?
Como teria crescido tanto?
Isto eu penso
enquanto, calmamente,
alimento o polvo
como faço todos os dias.

 

Mauro Iasi

Indispensável

Essa poesia surgiu como homenagem… e lembrei dela ontem, conversando com uma amiga. Achei que fazia muito sentido nesse momento… (a formatação tá alterada, mas não estou com a menor disposição de disputar com o wordpress quem formata o que…)

Dispensável

Dispenso os óculos escuros
prefiro os sinceros,
sem vergonha,
olhos vermelhos.

Dispenso os mil tapas nas costas
troco todos
por um abraço
forte
apertado
sincero.

Dispenso a elegância dos vestidos negros
prefiro a camiseta velha
que o acompanhou tantos dias

Dispenso a dó e a pena
aceito a dor
compartilhada, dissipada.

Viver é resistir

Continuando a breve série de poemas em homenagem aos trabalhadores, homens e mulheres, que morreram nos porões das prisões e das fábricas durante a ditadura no Brasil…

II

Mas com elas é muito pior…
    como pode ser pior!?
Não,  não é o estupro o pior
é a destruição da vida

Ela
        nem sabia
                                                                  o viu pela última vez
foi presa só
                                                     foi solta, só
foi tocada, apalpada
     penetrada
                                                      não lhe deixaram sentir
                                                      a mão no ventre
deu a luz
                                                      deu a luz
nunca mais
                                                      foi a mesma
enlouqueceu
                                                      fugiu.

Jantar

Hoje

jantei cerveja

    e ódio…

 

E dividi a janta

com os que tinham ainda mais comida

a me oferecer

 

Hoje

jantei cerveja

    e ódio…

 

E chorei sozinho

quando estava

satisfeito

Hoje

jantei cerveja

   e ódio…

 

E sinto a fome morta

e a queimação

no peito

 

Hoje

jantei cerveja

   e ódio…

 

E vou dormir

pra fazer a digestão

com a calma adequada

e a classe indispensável.

 

 

Escrita em 27.fev desse ano.

Já vai tarde (ou ‘Uma singela homenagem’)

 Já vai tarde

 

23 anos

uma vida

de poder

poder fazer o que quiser

e ninguém reprimir

 

repressão que o deixou assumir

e até gostou

repressão que caiu

ditadura que acabou

mesmo?

Não parece

eleições – indiretas

desafetos – afastados

rede globo – privilegiada

arte – consumida

 

E entre títulos e escândalos

acusações

CPI

e muita pizza

nós ficamos

de fora

ninguém torce mais

por canários

foram assassinados

por cachorros

de terno

 

E o seu maior projeto

corria como planejado

todo poder – e dinheiro

há sempre desejado

e toda pressão externa

já estava acostumado?

 

A pressão foi grande de mais?

Ou o individualismo é tanto, que

o seu bem estar se sobrepõe até

ao seu poder??

 

Mas até o fim

seguiu o modelo de chumbo

saída discreta

fingindo ser por vontade própria

estando sempre certo

evitando revoluções

uma transição segura

fria e lenta

bem diferente do que precisávamos

 

Mesmo assim, comemoramos

Sr. Ricardo, cagaste demais

já vai tarde.