Há tanto tempo…

Novamente, depois de muito tempo sem postar, coloco algo novo aqui.

A primeira de uma série de poesias em homenagem ao GTM, à peça que fizemos ano passado e, especialmente, a todas e todos os lutadores que sofreram tanto para que eu consiga colocar isso aqui na internet sem medo de virem à noite me fazer uma visita bastante inconveniente…

Viver e resistir

I

Estou sozinho,
e todos os meus camaradas
estão comigo.

Constroe minha loucura
conversam comigo
me dão forças pra negar
negar o meu corpo.

A cada não, um abraço
um aperto de mão
no meu pescoço
no botão do choque
um aperto do no no meu pé
do pé, no meu saco.

E é a minha esquizofrenia construída que me mantém
morrendo por fora
e vivendo lá fora.

Pátrias, corações e fronteiras

Vai hoje mais um poema do companheiro Mauro Iasi:

Fronteiras

Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras.

Queria explodi-los
em suspiros, gozo e anátemas
para que de tantos pedços
brotassem outras centenas.

Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras…

mas têm.

A vida imita a arte, ou a arte imita a vida?

Não é pergunta existencial não, é só provocação mesmo… ficam hoje dois textos que falam EXATAMENTE sobre o mesmo tema… mas que parecem tão distantes.

O primeiro, a poesia, do genial – e caríssimo – Chico Buarque de Holanda. Infelizmente, não é mais o Chico politizado de outrora, que traduziu/escreveu a peça Os Saltimbancos (com letras de Sergio Bardotti e música de Luis Enríquez Bacalov, baseado no conto ‘Os Músicos de Bremen). Mas como as obras são eternas, fica aí a poesia (atentem para o conteúdo da letra e não para as rimas simples a música infantil). Além da poesia, leiam o texto do blog do Sakamoto (excelente): “Salsichas, Nuggets e o direito do trabalhador ao descanso”. Lembrando que o descanso só vai ser alcançado numa sociedade em que boa parte do nosso trabalho não sirva para enriquecer os outros, e sim a nós mesmos…

 

A Galinha

Todo ovo

Que eu choco
Me toco
De novo
Todo ovo
É a cara
É a clara
Do vovô

Mas fiquei
Bloqueada
E agora
De noite
Só sonho
Gemada

A escassa produção
Alarma o patrão
As galinhas sérias
Jamais tiram férias
“Estás velha, te perdôo
Tu ficas na granja
Em forma de canja”

Ah !!! é esse o meu troco
Por anos de choco???
Dei-lhe uma bicada
E fugi, chocada

Quero cantar
Na ronda
Na crista
Da onda

Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país

Preview…

Essa semana foi interessante… tentando voltar ao ritmo de aula… mas com as matriculas de hoje, ainda não voltei…

Mas mais que isso… tentando voltar ao ritmo de militância de outros momentos… não fácil… obviamente não fácil, mas tá bom… como disse uma pessoa, “pra militar, precisamos de paixão”. Talvez, em outros momentos, me faltou um pouco, mas agora, estou muito feliz nesse momento… será muito difícil, mas vai valer a pena…

No mais, o preview é de um poema que deve ser publicado em um jornal da universidade em pouco tempo… tomara que gostem… aliás, a semelhança com um poema do Mauro Iasi, é efetivamente mera semelhança… depois li e percebi a proximidade de um pedaço… ainda que seja um poema dele que eu goste bastante…

Coisa triste

Ricardo Costa – “Xis”

Triste…
Estou triste
meu coração,
apertado
por um mundo de coisas
e quanto mais eu entendo o mundo
mais, ainda mais
ele me aperta
sufoca
comprime
Estou triste
mas não por mim
não só por mim
triste pelos meus
por quem faz tudo
todo o mundo
e esse, como está
só faz em coisas
todos, tudo

Estou triste
porque o mundo está forte
e com força faz de tudo
pra ficar como está
a inércia tenta se impor
sobre o movimento
a luta

Estou triste
tão triste
que me faço feliz
porque sei
que sou humano
porque coisas
ah, as coisas
não ficam tristes

Mudando, muito…

Bom… nessas ferias, resolvi dar uma mudada no blog… criei algumas paginas, sobre filmes, com imagens, e outros… daí, uso aqui essencialmente para poesias, textos, etc…

Dito isso, vamos ao que eu disse que tinha que estar aqui… Essa semana, fiz um curso sobre Economia Política… e fiz uma coisa diferente, que eu nunca tinha feito, dificil e muito legal… recitei uma poesia, em um “sarau”… a noite, tomando cerveja, tocando violão… o Mauro Iasi não sabia tocar a musica que ele queria, resolveu recitá-la… daí, um companheiro resolveu recitar outra, e foi indo, dai trouxeram livros e etc… depois de tomar coragem (e alguma cerveja…), resolvi recitar uma das primeiras poesias que me fez querer escrever poesias… deu tudo certo… muito bom.

Cantada

Ferreira Gullar

Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana

Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana